A
missão evangelizadora da Igreja tem várias dimensões e assume também um
papel de transformação social. Esta componente inclui todo o vasto
espectro das preocupações sociais, que vai da atenção concreta à
educação, à saúde ou à família até à promoção do bom governo ou da paz.
Para
muitos católicos, a evangelização é um termo pouco familiar e
relativamente novo. O Concílio Vaticano II, assim como os Papas mais
recentes, puseram a evangelização no centro da identidade e da missão da
Igreja. Hoje, a Igreja considera que «os elementos principais» da sua
missão e da evangelização são: presença e testemunho; compromisso com o
desenvolvimento social e a libertação humana; vida litúrgica, oração e
contemplação; diálogo inter-religioso; proclamação e catequese.
Em
suma, a verdadeira missão evangelizadora da Igreja é constituída por
diversos componentes e dimensões, que fazem parte integrante da mesma.
Esta visão integral ou holística serviu bem a Igreja durante as
últimas décadas. Através de uma análise conjunta das cinco dimensões da
evangelização, adquire-se clareza, capacidade de introspecção e de
proceder a uma adequada integração. Esta é a visão católica da
evangelização.
Primado do testemunho
Para Paulo VI, que afirma que «evangelização significa levar o Evangelho a todos os estratos da humanidade» (en 18),
a presença cristã e o testemunho de vida constituem «o acto inicial da
evangelização». As actividades diárias, como viver juntos em harmonia,
viver com integridade, cumprir fielmente os próprios deveres na
comunidade — tudo isto deve constituir um elementar «testemunho de fé»
que demonstra como a vida humana é transformada pela fé e pelos valores
cristãos. Através deste testemunho silencioso, sem palavras, os
«cristãos despertam perguntas irresistíveis nos corações daqueles que
vêem como eles vivem» (en 21).
E, no mundo de hoje, as pessoas desejam e respeitam testemunhas
autênticas. Na Ásia, a madre Teresa de Calcutá (beatificada em 19 de
Outubro de 2003), mundialmente conhecida pelo seu cuidado amoroso e
altruísta para com os mais pobres dos pobres, é um «ícone» da presença,
da vida e do serviço cristãos.
Integração
Viver
em comunidade como bons vizinhos, baseados em convicções de fé, deve
naturalmente resultar num compromisso com o desenvolvimento social e a
libertação humana, num serviço que genuinamente se presta à humanidade.
Isto significa servir os mais desafortunados, testemunhar a justiça,
defender a integridade da criação; esta dimensão da evangelização inclui
toda a área de preocupações sociais, desde a construção da paz, dos
serviços de educação e saúde, à promoção da vida em família e ao bom
governo. A área da transformação social e da promoção humana é uma área
vasta da missão evangelizadora da Igreja (rm 58-60).
A evangelização integral e a libertação deverão incluir necessariamente
a vida litúrgica, a oração e a contemplação. Ninguém pode,
efectivamente, estar comprometido com a missão da Igreja sem uma fé
forte e uma vida de oração. A evangelização precisa de homens e mulheres
santos que se inflamem no fogo do amor de Cristo; espalhar o fogo do
Evangelho será somente realizado por aqueles que já foram inflamados com
uma experiência de Cristo. A santidade é uma condição insubstituível
para os evangelizadores. A «experiência de Deus» alcançada na oração e
na contemplação, na vida sacramental e litúrgica iluminará e
transformará todas as outras dimensões da evangelização (en 23, 43-44, 47; rm 46-49, 87-92).
Contextualização
Todas
as actividades de evangelização da Igreja estão introduzidas em
contextos específicos. Na Ásia, por exemplo, todas as actividades de
evangelização assumem naturalmente uma dimensão inter-religiosa. Assim, a
Igreja na Ásia, como acontece na maioria dos lugares no mundo de hoje,
realiza a sua missão em culturas pluralísticas e diversas; participa no
diálogo inter-religioso, cooperando com os seguidores das maiores
tradições religiosas. O diálogo inter-religioso assume uma grande
variedade de formas; temos o diálogo da vida diária, as acções comuns em
prol da transformação social, as iniciativas levadas a cabo pelos
peritos religiosos e as experiências de intercâmbio ao nível de fé,
assim como outras formas. O Papa João Paulo II afirmou que «o diálogo
inter-religioso é uma parte da missão evangelizadora da Igreja» (rm
55). Este diálogo emerge das próprias convicções de fé. Nas
circunstâncias contemporâneas, o diálogo com as religiões e culturas são
uma resposta cristã verdadeiramente adequada (rm 52-54, 55-57) e à altura dos tempos.
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Finalmente,
temos ainda a proclamação explícita do Evangelho. Esta dimensão da
evangelização inclui a pregação, a catequese na vida cristã, o ensino e a
transmissão dos conteúdos da fé. Em suma, isto significa «contar a
história de Jesus». Quando o Espírito Santo abre a porta, e quando o
tempo se revela oportuno, os cristãos contam a história de Jesus, dando
testemunho explícito e demonstrando a fé. Os outros são convidados, em
liberdade de consciência, para seguir, para vir conhecer Jesus. Através
da proclamação, os cristãos aprofundam a instrução na sua própria fé;
este é o processo pelo qual a fé cristã é comunicada de geração em
geração (rm 44-51).
Toda a Igreja
Obviamente,
estas cinco dimensões de uma compreensão integral da evangelização
complementam-se e reforçam-se. Falando da complexidade da acção
evangelizadora da Igreja, Paulo VI fez um aviso oportuno: «Qualquer
definição parcial e fragmentária que tente apresentar a realidade da
evangelização em toda a sua riqueza, complexidade e dinamismo corre o
risco de empobrecê-la e mesmo de distorcê-la.» O Papa continuou: «É
impossível compreender o conceito de evangelização a menos que se tente
manter em vista todos os seus elementos essenciais» (en
17). Assim, os elementos da justiça social, do diálogo inter-religioso,
da construção da paz, da promoção da educação e saúde, do testemunho de
vida, etc., não são simplesmente «preparatórios» da evangelização:
todos os cinco «elementos principais» são constitutivos de uma
compreensão integral. Paulo VI e João Paulo II expandiram os horizontes
da evangelização; a visão mais restritiva, que sustentava que somente a
proclamação explícita do Evangelho e a vida sacramental constituíam a
missão da Igreja, foi superada. Em conjunto com esta visão alargada da
evangelização, encontramos uma ênfase renovada na natureza missionária
de toda a Igreja (cf. ag
2). Cada membro baptizado da Igreja é um evangelizador, quer seja
leigo, ordenado ou religioso. Antes, quando a evangelização estava
ligada mais exclusivamente com a proclamação explícita do Evangelho, a
vida sacramental e os ministérios ordenados, os leigos tinham
dificuldade em compreender como podiam e deviam ser evangelizadores – e
em apreciar essa sua vocação dentro da Igreja. Hoje, a evangelização
católica envolve toda a Igreja (do topo à base; especialmente, todas as
Igrejas locais), todos os estados de vida (laico, religioso, ordenado,
casado, solteiro), todas as actividades apostólicas e formas de
testemunho (os cinco elementos principais). A totalidade da
evangelização cristã missionária envolve todos estes aspectos.
Missão «de Deus»
Quando
muitas palavras já foram ditas, quando já muita tinta correu, quando
definições e categorias foram esclarecidas, e quando mais uma
apresentação foi concluída, mais os cristãos católicos devem afirmar
radicalmente que «toda a missão e evangelização são projecto de Deus. O
Espírito Santo é sempre o agente principal da evangelização». Para
evangelizadores, missionários, catequistas, religiosos e leigos, missão
significa necessariamente tentar encontrar quais os desígnios de Deus e o
que Ele está a fazer. Assim, o evangelizador autêntico curva-se perante
a vontade de Deus, rende-se alegremente ao plano de amor de Deus e
emprega toda a sua energia e esforços para se tornar um instrumento
digno que permita que o plano de Deus se revele. A evangelização, no
fundo e no cerne, é um assunto de fé (cf. rm 11). Para um cristão, viver é evangelizar!
Missão, porquê?
A
renovação do sentido da missão exigirá também uma renovação das
motivações para a missão. Tem-se observado em alguns um enfraquecimento
destas motivações tão necessárias para perseverar nesta tarefa exigente.
Porque é que, na verdade, devemos evangelizar?
Evangelizamos, primeiro que tudo, num sentido profundo de gratidão
a Deus. A missão é, acima de tudo o mais, um extravasar desta vida dos
corações gratos transformados pela graça de Deus. Essa é a razão por que
é tão importante para nós cristãos ter uma experiência de fé profunda
do amor de Deus em Jesus Cristo (Rom 8,39). Sem uma experiência pessoal deste amor recebido como dádiva e mercê, nenhum sentido da missão pode florescer.
Mas missão é também um mandato.
Evangelizamos porque somos enviados para todo o mundo para fazer
discípulos de todas as nações. Quem nos envia é Jesus. Envia-nos numa
missão que é parte da epifania do plano de Deus. Não podemos cumprir
esta missão fora dele (Jn 15:4-5). Mas Ele assegura-nos que permanecerá
connosco todos os dias até ao fim do tempo (Mt 28:20), e enviou-nos o
Seu Espírito de modo que nós pudéssemos ser suas testemunhas até aos
confins da Terra (Actos 1,8).
Missão é também partilha
dos dons que recebemos. Infelizmente, para muitos católicos, a fé é
somente algo para ser recebido e celebrado. Não sentem que é algo para
ser partilhado. A natureza missionária da dádiva da fé deve ser
inculcada em todos os cristãos. Todos devem ser ajudados a compreender
que Deus nos chamou para ser cristãos, não somente para que possamos ser
salvos, mas para que possamos colaborar na salvação dos outros.
Finalmente, evangelizamos porque o Evangelho é fermento para a libertação
e para a transformação da sociedade. O nosso mundo precisa dos valores
do Reino e de Cristo a fim de trazer o desenvolvimento humano, a
justiça, a paz e a harmonia com Deus, entre os povos e com toda a
criação por que os povos da Ásia anseiam.
Bispos da Ásia, FABC V